Mensagens

CASA II

Imagem
  CASA II * Meu dito, meu feito. Meu tudo, meu nada. No mar, a jangada. Na casa, o meu leito Desfeito e refeito por mão deformada, Dorida e cansada, sem força, nem jeito *   Pra tê-lo perfeito... lençol, almofada De fronha rendada, bordada a preceito... Portanto me deito em cama amarrotada Que a noite sonhada não ponho defeito. *   Meu sim e meu não de amarga (in)certeza; Talvez cama e mesa, talvez tecto e pão, Depois da paixão, da força e destreza... *   Rainha ou princesa? Operária, que o são As muitas que em vão viverão na pobreza; Nem canto, nem reza. Não pedem, só dão! *   Maria João Brito de Sousa -03.08.2018 – 09.50h    

CARTA ABERTA À MINHA MUSA - Soneto sem a letra "O"

Imagem
  CARTA ABERTA À MINHA MUSA (Soneto sem a letra “o”) * Cara metade minha, claramente Te revelaste em meta caminheira; Tanta passada deste à minha beira, Que passada te cri, eternamente. *   Perdida me senti, perdidamente, Mas achada me achei, perfeita, inteira, Apesar desta inépcia e da canseira, Ainda que insubmissa e que insurgente. *   Amansa essa passada, essa cadência, Essa pressa que sempre me ultrapassa Na sede de saber, na sua urgência... *   Fartei-me de estar presa e velha e lassa, Cansei-me de apressar-me e, sem paciência, Passa-me a ser a meta uma ameaça. *   Maria João Brito de Sousa – 03.08.2018 – 13.12h  

A MÃO QUE A CHAMA ATEIA

Imagem
  A MÃO QUE A CHAMA ATEIA * A mão que lança a chama, à chama torna E tarde ou cedo se renova o gesto Com o qual estranhamente a si se adorna Do desprezo que nutre pelo resto * Contempla toda a serra que a contorna, Observa a dor causada, ouve o protesto, Crê ver-se ao espelho e quando a cinza amorna, Retoma o gesto por qualquer pretexto. *   Cada imagem filmada, cada grito, Cada ser acossado, preso, aflito, Vem garantir-lhe a glória de quem pode. *   Assim se delineia a mão que ateia, A mão que nunca pensa nem refreia A compulsão que em si se acende e explode. * Maria João Brito de Sousa – 08.08.2018 – 11.33h  

CASA

Imagem
  CASA * Agiganta-se a casa. O mundo pára. Não excede o meu telhado o próprio céu, Quando me falam deste pouso meu, Da minha toca velha e estranha e rara, *   Deste tecto onde a musa se declara A cada verso lido como seu E, a cada passo que ainda não deu, Mais foge a casa que nos foi tão cara. * Se fico, estou perdida e, se vou, morro. Pra quê chorar, gritar, pedir socorro? Escolho morrer, ficando! Morro nela. *   A musa (inexistente) assim mo dita, Pois disso nos dependem verso e escrita; Arrisco, escrevo e não desisto dela!   Maria João Brito de Sousa – 02.08.2018 – 09.52h  

PONTUALIDADE

Imagem
  PONTUALIDADE * Desde ontem, quantas células morreram No meu e no teu corpo amanhecido? Quantas foram mudando de vestido, E quantas, por já gastas, se perderam  * Na escória de excreções que as depuseram Do seu cargo no esquema definido, Descartadas por terem já perdido A validade de que dispuseram? *   Se tudo se renova e tudo muda, Tudo terá um fim, no fim do prazo, Tudo se decompõe, ou se desnuda. * Se nada disto ocorre por acaso, Pergunta à vida, que ela não se escuda Por detrás de desculpas, nem de atraso.   * Maria João Brito de Sousa – 14.07.2018- 17.07h

"P" de PECADO

Imagem
  “P” de PECADO *   Pequei! Pesada pena, pausas parcas, Postulam prolongadas privações. Penosamente parem patriarcas, Póstumo pó, pesadas punições. *   Perdido prumo. Pesa(m)-me Petrarca(s). Procuro pastos. Prendem-me prisões Profanadas por penas de plutarca(s). Proféticas. Prováveis. Previsões. *   Púdicos pés pisei. Pratos parti. Penosamente presa, paz perdi. Palimpsesto. Pintura. Palco. Ponto. *     Provei paz paralela. Podre paz. Pobreza pressenti. Pão pertinaz. Produzo; pumba, pumba! Peco? Pronto!   *     Maria João Brito de Sousa – 25.07.2018 – 13.51h  

SONETO DE POUCAS FALAS

Imagem
  SONETO DE POUCAS FALAS     * Com palavras banais, muito banais, Se tecem tramas quase indecifráveis E com elas se ditam os finais Que não consideramos mais prováveis. * Por vezes são curtinhas, mas letais Quando aparentam ser irrecusáveis E quero crer que, mesmo acidentais, Nos trazem risco e dor incomportáveis * Pois numa só palavra há riscos tais, Tão grandes, de tal monta intoleráveis Que é bem melhor eu nem explicar-vos mais, * Não vá, por conta de uns imponderáveis, Dizendo pouco, dizer-vos demais Sobre o que penso de alguns intocáveis... * Maria João Brito de Sousa – 13.07.2018- 1142h