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M de MULHER

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    “M” de MULHER *       Mordaz, mordisco o M de mulher, Magnânimo, magnético (i)mortal... Mágico ou mitológico morder, Meramente (e)molduro o meu mural.   *     Menos maltrato o M de morrer, Moroso mártir (i)memorial; Manto. Monotonia. Maldizer. Menarca. Maldição. Medieval. *     Mostra, menina, as marcas da manhã, Memoriza a matéria mais malsã, Mórbida miscelânea (i)memorável, *     Ministra o ministério, molda mais, Mantém modestas mãos materiais Medindo, maternais, o (i)mensurável. *         Maria João Brito de Sousa – 06.09.2018 – 17.22h  

OS MERCADORES DE ILUSÕES

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  OS MERCADORES DE ILUSÕES *     Trazemos sedas, linhos, algodões Pr`aconchegar melhor quem sinta frio, E espaço e sonhos nas embarcações Que dentro em pouco irão fazer-se ao rio *   Rumo ao país das grandes tentações Que em vós despontam quando chega o Estio E, quando não encontram soluções, Vos matam de tristeza ou de fastio... *   É pegar ou largar! Nas barcas cabem Medo e hesitações dos que não sabem O que é um sonho, ou como construí-lo; *   Apressai-vos que a hora é de partida, Não percais tempo nem na despedida, Que os instantes, aqui, pagam-se ao quilo! *       Maria João Brito de Sousa – 30.08.2018 – 12.44h * Tela de Hieronymus Bosch

FADOS E ENFADOS DE UMA CIDADE EM RENOVAÇÃO

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  FADOS E ENFADOS DE UMA CIDADE EM RENOVAÇÃO *     Uma cidade escreve-se por dentro; permeável a quem vier de fora, fervilha e é transmutada a cada hora, desde a periferia até ao centro. *     Mudou-se, a urbe nova onde não entro, para uma casa na qual ninguém mora mas, sem sentido, ainda se decora de raminhos de salsa e de coentro. *     Os soldados de chumbo vêm vê-la passar num desconcerto concertado, o smartphone a berrar, o cão à trela, *     Um riso dissonante, alienado, e o plástico pé, preso à chinela, a mostrar que nem tudo é tão só fado... *       Maria João Brito de Sousa – 05.09.2018 – 13.44h          

SEGUNDA CARTA ABERTA A UMA MUSA INEXISTENTE

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  SEGUNDA CARTA ABERTA A UMA MUSA INEXISTENTE * O que é feito de ti? Por que partiste? Nunca a ti te falhei; mesmo doente Dei-te toda a atenção que me pediste E se uma vez ou outra te fiz frente * Foi porque demasiado me exigiste E, às tantas, te tornaste prepotente... Repara que o poema em mim persiste, Embora a tua voz lhe esteja ausente * E o verso seja fraco e lasso e triste E apenas pra mostrar que não desiste Teime em escrever-se, assim, penosamente, * Como quem perde a força, mas resiste, E admite que, afinal, a musa existe, Mesmo quando lhe chama inexistente. * Maria João Brito de Sousa – 26.08.2018 – 11.31h  

TERCEIRO AUTO-RETRATO

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  TERCEIRO AUTO-RETRATO * Nem pudibunda, nem despudorada, nem tudo irá lançar-me em desconcerto e estarei quase sempre equilibrada ainda que lançada em grande aperto. *   Se não segura, fico bem calada, se já segura de estar bem mais perto, é bem possível que não diga nada e para mim (res)guarde o descoberto. *   Tenho bastos defeitos, dos pequenos, mas há quem erre mais por muito menos do que as razões que, a mim, me vão sobrando. *   Não faço fitas nem gestos obscenos, distingo bem os senos dos cossenos;  à tangente me esboço... e vou escapando. *   Maria João Brito de Sousa – 02.09.2018 – 17.37h  

NESTA CASA

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  NESTA CASA *     Neste estuário, essa íntima constante do que tenho de meu, sem que meu seja, é onde o verso espreita e me corteja, sedutor, persuasivo, insinuante... *   Quase garanto não haver garante de que, no tempo, outro local me eleja um espaço que me abrigue, me proteja e me cubra de versos, como amante. *     Foi nesta casa, com a qual casei em nome de um amor que não tem nome - e se o tiver, confesso que o não sei -, *   Que ganhei corpo de alga e passei fome e me fiz concha e às rochas me moldei, tal qual o faz o sal que me consome... *       Maria João Brito de Sousa – 03.09.2018 – 18.17h    

CONSELHOS

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CONSELHOS *   Exaltem-se os protestos, abram-se alas Nas praças, nas vielas e nas ruas Aonde, desdenhado, desconstruas A mensagem que houver na dor que exalas; *   Basta que digas não, quando te calas, Que te banhe o suor que agora estuas, Que tragas as vermelhas veias nuas, Que te faças ouvir, enquanto falas! * Que ingenuidade a minha! Dou conselhos Quando já estou de tudo despojada... Quebrada, sim, mas nunca de joelhos, *   Julgo ter voz quando não tenho nada Senão o vôo frágil dos pardelhos E a minha barca errante e naufragada. *   Maria João Brito de Sousa – 02.09.2018 – 14.41h