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PODE UM VERSO ALBERGAR RAZÕES QUE NEM SONHEI

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  Desenho de Júlio (Irmão de José Régio) *   PODE UM VERSO ALBERGAR RAZÕES QUE NEM SONHEI * De negro pintarei a esplêndida verdade De um verso que me agrade. Depois o cantarei E aos outros deixarei voar em liberdade Que essa necessidade impõe-se ao que criei * Se algum sonhar ser rei, faça-se-lhe a vontade E embora a realidade arrase o que engendrei, Nunca aprisionarei um verso que se evade, Nem mesmo se a saudade entender que eu errei *   Que mais quis que o que dei, que ousei contrariar A órbita lunar, os homens e a lei... Não, não me calarei. Se posso argumentar *   Devo justificar aquilo por que optei Em nome do que sei não dever desdenhar: Pode um verso albergar razões que nem sonhei! *   ©Maria João Brito de Sousa     25.09.2020 - 10.00h   Soneto alexandrino com rima entrançada

SEM DONO I e II

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  Tela de Pablo Picasso (Fase azul) * SEM DONO * I * Não sabe se é ateia ou se é pagã Uma mulher que passa distraída E vai saboreando uma maçã Que desconhece estar a ser comida * Que sabe essa mulher do amanhã Se vive ao deus-dará, desprotegida? Parece-lhe a questão um tanto vã Pra quem barata vende e compra a vida... * Abre a porta do quarto de aluguer Devagarinho para não ranger E senta-se num banco. Está com sono. * É tarde, é muito tarde pra pensar E depressa adormece. Ao acordar, Jurará que é feliz por não ter dono. * II * Ele ergue um novo muro a fio-de-prumo, Carrega às costas passado e futuro E almoça muito à pressa num arrumo Uma cerveja quente e pão já duro * Fuma um cigarro. Uma argola de fumo Forma-se e esvai-se toda no ar puro Como se optasse por traçar um rumo Que pra nenhum dos dois será seguro * O cimento atingiu o ponto certo E o muro cresce como que liberto Da tal conotação que não merece * O Sol está quase a pôr-se atrás do mar E o muro ainda está por acabar... P...

VERSO A VERSO

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   Imagem gerada pelo ChatGPT *     VERSO A VERSO *   Na tenaz destas coxas que te prendem Conduzo-te, poema imaginário, Por ondas e marés, doce corsário, Ao cais onde estas vagas se me rendem *   Rotas hábeis que engendro e que te entendem, Levar-te-ão, poema solitário, Ao cais urgente, ao porto necessário À nau que vara as ondas que a suspendem *   Afundo-te, poema, verso a verso, Firmando o leme assim que tu, disperso, Te desvias da rota e, já perdido, *   Recusando, talvez, morrer submerso Na doce embriaguês deste universo, Me negas o naufrágio, arrependido. *   ©Maria João Brito de Sousa Fevereiro, 2016     In A CEIA DO POETA (inédito)  

A JUSTIFICAÇÃO DO MAR

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        A JUSTIFICAÇÃO DO MAR * Serei, na (in)completude dos gentios, Quem foi, de ti, o berço original, Quem te encheu da grandeza natural De invernos, dos agrestes, e de estios * Sou quem te enfeita de ilhas e baixios, Quem te cava este leito de água e sal, Quem te cobre de bancos de coral, Quem te devolve a água dos seus rios * Sou quem te concedeu a imensidão Das coisas que mal sabes desvendar, Quem cresce ao renovar-te e quem te fez * Eu, a VONTADE, sempre em progressão, De me expandir, de me multiplicar: Sou tudo o que adivinhas mas não vês! *    ©Maria João Brito de Sousa * 23.01.2008        

SEM TÍTULO VII

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  Imagem gerada pelo Chat-GPT * SONETO SEM TÍTULO VII *   Num verso me quis dar, nos outros me fui dando Como se em verso amando eu mais pudesse amar Ou como se cantar fosse ir-me, a mim, doando Nunca sabendo quando insistir… ou parar *   Depois de a mim me achar, quiçá, frutificando E em tudo me adequando a quanto ousei cantar, Talvez reflicta o mar, talvez vá naufragando E vá o mar cantando os versos que eu calar *   Se pareço falar de mim, tão só de mim, Não vos direi que sim, nem vos direi que não, Porque esta embarcação transmuta-se em jardim * E eu, mero varandim para a tripulação Que dela fez seu chão e nela viu seu fim: Entendo ser assim que não se morre em vão. *   ©Maria João Brito de Sousa 16.11.2022 - 11.00h * Soneto em verso alexandrino com rima entrançada ***    

QUIMERA

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                              Tela de minha autoria *  QUIMERA *     Trouxe-te a noite em asas de poema,   Levou-te uma manhã sem coração:   Foi-te a vida fugaz como ilusão   Mas deixou-me a saudade imensa, eterna *     Se tudo o que vivemos vale a pena   Teria o teu percurso sido vão?   Meu menino, sei lá por que razão   Te concederam vida tão pequena... *     Mas se, apesar de tudo, ainda vives   Se a alma pequenina que tu és   Ganhou as asas de anjo que sonhei   *     Então existo menos do que existes:   Sou o barro em que pousam os teus pés   E velo uma quimera que engendrei.   *        ​ ©Maria João Brito de Sousa   04.02.2008 - 03.30h *

TROCA O PASSO AO DESCOMPASSO

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  Imagem Pinterest * TROCA O PASSO AO DESCOMPASSO *   Há que trocar o passo ao desgoverno, Dar a volta ao (con)texto que vigora, Mudar o rumo à barca que ao inferno Conduzirá o povo sem demora * Há que lembrar que Abril não é eterno, Que é preciso cuidá-lo a toda a hora Antes que algum conservador/moderno Nos lance o vinte e cinco porta fora * Há que trocar o passo ao descompasso, E jamais ir atrás de algum palhaço Que nos ponha a correr... mas para trás * Como os ponteiros de um relógio louco Que corra muito mas que acerte pouco Porque de acertos jamais foi capaz. *   ©Maria João Brito de Sousa 28.04.2024 - 14.00h ***