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A SOBREVIVÊNCIA DO SONETO NO ACTUAL PÓS MODERNISMO
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ALMAS GÉMEAS - O Livro
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HOMENAGEM DE APOIO À MARIA JOÃO O Albertino Galvão tomou a iniciativa, propôs-me e eu concordei, de mandar fazer uma edição de 50 livros, pagos por nós dois, em nome da nossa amiga poetisa e participante do HP, Maria João Brito de Sousa. Essa atitude teve dois propósitos: - homenagear a que é, sem dúvida, uma das maiores poetisas portuguesas de todos os tempos - proporcionar-lhe algum conforto, entregando-lhe em mãos a receita TOTAL da venda dos livros, sabendo como é a sua v ida, a que nada ajuda uma grande falta de saúde, que se vem agravando ano após ano. (Aliás, somos da opinião que já deveria ter sido ajudada por alguma entidade oficial, mas, já que isso não aconteceu, vamos ser nós - os que puderem - a prestar-lhe algum apoio.) O livro tem por título ALMAS GÉMEAS (vamos colocar a capa no item FOTOS no HP), e é composto por duas partes: - Dialogando com Florbela (dois sonetos da Florbela/dois da Maria João) - Glosando Florbela (30 sonetos da Florbela/30 sonetos da Maria João, glos...
GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (19)
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O MEU MAL Eu tenho lido em mim, sei-me de cor, Eu sei o nome ao meu estranho mal: Eu sei que fui a renda de um vitral, Que fui cipreste e caravela e dor! Fui tudo que no mundo há de maior; Fui cisne e lírio e águia e catedral! E fui, talvez, um verso de Nerval, Ou um cínico riso de Chamfort... Fui a heráldica flor de agrestes cardos, Deram as minhas mãos aroma aos nardos... Deu cor ao eloendro a minha boca... Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha! E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha! Mágoa de não sei quê! Saudade louca! Florbela Espanca, in "Livro de Soror Saudade" MEU BEM, MEU MAL... "Eu tenho lido em mim, sei-me de cor" E a cada verso mais me vou sabendo, Como se sabe a flor do aloendro Que desconhece ter-se aberto em flor. "Fui tudo o que no mundo há de maior;" Um átomo do espaço a que me prendo, Cada espasmo do orgasmo a que me rendo E o sofrimento em que me deixa a dor. "Fui heráldica flor de agrestes cardos", Fiz minha a dev...
GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (18)
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PANTEÍSMO Ao Botto de Carvalho Tarde de brasa a arder, sol de verão Cingindo, voluptuoso, o horizonte... Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão Dum verso triunfal de Anacreonte! Vejo-me asa no ar, erva no chão, Oiço-me gota de água a rir, na fonte, E a curva altiva e dura do Marão É o meu corpo transformado em monte! E de bruços na terra penso e cismo Que, neste meu ardente panteísmo Nos meus sentidos postos e absortos Nas coisas luminosas deste mundo, A minha alma é o túmulo profundo Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos! Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" TROPISMO(S) "Tarde de brasa a arder, sol de Verão" Sobre um estuário estático e brilhante Que me parece vir da dimensão De um mundo imaginado e já distante ... "Vejo-me asa no ar, erva no chão", Cauda de peixe, nau de navegante, Sargaço, limo, lapa ou mexilhão Nas desnudadas rochas da vazante... "E de bruços na terra penso e cismo"; Que louco este infindável mimetismo, Que estranha a minha ...
GLOSANDO FLORBELA (17)
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A VIDA É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento... Lançar um grande amor aos pés d'alguém O mesmo é que lançar flores ao vento! Todos somos no mundo "Pedro Sem", Uma alegria é feita dum tormento, Um riso é sempre o eco dum lamento, Sabe-se lá um beijo donde vem! A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida... Amar-te a vida inteira eu não podia... A gente esquece sempre o bem dum dia. Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" ... E A MINHA... "É vão o amor, o ódio, ou o desdém" E esvaem-se as paixões mais exaltantes Na própria combustão do que as mantém Acesas como chamas rutilantes... "Todos somos no mundo ´Pedro Sem`" Que exalta as suas naus já vacilantes Pr`a logo descobrir que, sem vintém, Tudo voltava a ser como era dantes... "A mais nobre ilusão morre... desfaz-se..." E a realidade, ...
GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (16)
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DESEJOS VÃOS Eu qu’ria ser o Mar d’altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu qu’ria ser a pedra que não pensa, A Pedra do caminho, rude e forte! Eu qu’ria ser o Sol, a luz intensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu qu’ria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até da morte! Mas o Mar também chora de tristeza... As Árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!.. Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" REFLEXÕES... "Eu queria ser o Mar d`altivo porte", Sentir-me a flutuar na vaga imensa Que se ergue prepotente, irada, tensa, Pr`a desfazer-se em espuma, num desnorte... "Eu queria ser o Sol, a luz intensa", O brilho luminoso, o raio forte Que, aceso, nos aquece e recompensa, Mas nos foge a seguir, tal como a sorte... "Mas o Mar também chora de tristeza", Desfaz-se a vaga em ...