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DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII

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Eu, fotografada por Rogério V. Pereira * DIVERSOS DÕES REPARTE O CÉU BENINO *   Diversos dões reparte o Ceo benino, E quer que cada huma alma hum só possua; Por isso ornou de casto peito a Lua, Que o primeiro orbe illustra crystallino; * De graça a Mãe formosa do Menino, Que nessa vista tẽe perdido a sua; Pallas de sciencia não maior que a tua: Tẽe Juno da nobreza o imperio dino. * Mas junto agora o largo Ceo derrama Em ti o mais que tinha, e foi o menos Em respeito do Autor da natureza. * Que a seu pezar te dão, formosa dama, Seu peito a Lua, sua graça Venos, Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza * Luís de Camões *** Eu que formosa fui em tempos idos Mas despojada estou dessoutros dões, Não sei por que converso com Camões Se o grande vate não quer dar-me ouvidos... * Ainda que me cubra de vestidos, De jóias de quilate e de galões, Este corpo é tão falho em atracções, Quão fértil em maleitas e pruridos! * De infindos dões, contudo, fui dotada P`lo já citado Autor da natureza Que mui pr...

RELEMBRO II

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RELEMBRO II * Qu`ria cantá-lo, mas quando olho Abril. Neste ano de dois mil e vinte e quatro, Só hienas vejo rondando um covil Onde Abril é vendido ao desbarato... * Conservo um cravo, sim... Tivesse eu mil, Voltasse Abril àquele momento exacto Em que o povo saiu do seu redil, Não este Abril/burguês, Abril/retrato... * Por quantas portas foram já fechadas, Das tais que "Abril abriu"* e que não esqueço, Relembro e clamo:- Voltem madrugadas * Ao dia "inteiro e limpo"** que confesso Ter visto em tantas almas irmanadas Que, cegas, foram dá-lo às mãos erradas. *   Mª João Brito de Sousa 15.04.2024 - 15.00h ***   * "inteiro e limpo" - fragmento de um verso do poema 25 DE ABRIL de Sophia de Mello Breyner Andresen ** "Que Abril abriu" - fragmento do título do poema AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU de Josá Carlos Ary dos Santos

CREIO NO PÃO - Reedição

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Fotografia de António Pedro Brito de Sousa * CREIO NO PÃO * Pode o diabo ter-me até estendido O pão amanhecido que mordeu Mas, quanto ao resto, ter-vos-á mentido Pois quem o amassou fui eu, só eu! * Se o diabo ficar aborrecido Por ver-se despojado de um troféu, Viro-lhe as costas, vou noutro sentido E amasso um pão que seja mesmo meu. *   A massa deste pão, quão mais cozia Mais dourava, crescia e rescendia Às ervas bravas da planura mansa *   E demo algum tal pão cobiçaria Porque leveda nele a poesia De quem é velho mas já foi criança. *     Maria João Brito de Sousa  25.06.2020 - 21.00h ***

VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA - Reedição

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Tela de Hieronymus Bosch * VISLUMBRES DE UMA DISTOPIA * Silenciosos nos seus corpos de aço, Dormindo estranhos sonos vigilantes E usufruindo, ou não, de um espanto escasso, Estão os que já não são o que eram dantes * Guardam os torreões do novo Paço E, escolhidos a dedo, são gigantes Que correm dez mil milhas sem cansaço E abatem de um só sopro astros errantes * As montanhas, rolando sobre esferas, Desviam-se dos rios e das ribeiras Que agora desaguam nas crateras * Cavadas pelas balas não certeiras: Não há dias nem noites, só há esperas, Frágeis conspirações, pulsões grosseiras... *   Mª João Brito de Sousa 28.03.2022 - 14.00h ***  

O NOJO

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Imagem retirada da Wikipédia *  NOJO * Enquanto os vermes sobem ao poder E a podridão se infiltra nas ranhuras, Os grandes são tão só caricaturas Da grandeza ideal que dizem ter! * O nojo aumenta e há náusea a renascer Em todas as humanas criaturas Que honraram outro Abril com partituras Que só quem queria a paz podia ver * Bem mais forte que o medo é esta injúria, Esta infâmia de ver a coisa espúria Que a vermina transporta enquanto o nojo * Em nós sobe de tom, passa a agonia E dói-nos tanto que a democracia Não mais é sonho e cai como um despojo! *   Mª João Brito de Sousa 28.03.2024 - 15.00h ***  

DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII

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Imagem Pinterest *   DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII *   COMO QUANDO DO MAR TEMPESTUOSO * Como quando do mar tempestuoso O marinheiro todo trabalhado, De hum naufragio cruel sahindo a nado, Só de ouvir fallar nelle está medroso: * Firme jura que o vê-lo bonançoso Do seu lar o não tire socegado; Mas esquecido ja do horror passado, Delle a fiar se torna cobiçoso: * Assi, Senhora, eu que da tormenta De vossa vista fujo, por salvar-me, Jurando de não mais em outra ver-me; * Com a alma que de vós nunca se ausenta, Me tórno, por cobiça de ganhar-me, Onde estive tão perto de perder-me. * Luíz de Camões ***   Se vos haveis ganhado onde perdido Estivestes quase, quase, em fúria tanta, Cuidai de vos cuidar que se alevanta Tormenta bem maior que a que heis sentido * Imensa em força, doble em arruído E capaz de vergar mesmo Atalanta, Esta a todas as outras as suplanta Pois mais de mil borrascas há vencido * Fugi então de ouvir novas de mim: Se da fúria primeira vos sal...

AMAR-TE, POESIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

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Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia in LIVRO DE BORDO de António de Sousa *   COROA DE SONETOS * AMAR-TE, POESIA * Amar-te em cada ano em dia certo E ter que estar à espera todo o ano Dizer uma só vez: eu não te engano Apenas venho aqui hoje liberto * Eu ando no trabalho aqui por perto Mas meu patrão é velho e tão insano Que só me deixa vir, por inumano, Um dia sem saber ao quê decerto * Pois, se soubesse, amor, que eu aqui vinha Não me deixava vir. Se ele adivinha Ou se alguém lhe contar que nesse dia * Venho comemorar e dar-te um beijo Proíbe-me de vir, não mais te vejo Mesmo uma vez por ano, poesia! * Custódio Montes 22.3.2024 (e só no dia seguinte….) *** "Mesmo uma vez por ano, poesia", Que pra ti corra e enlace fascinada Sabe-me sempre a pouco, ou quase nada, Quanto em ti por segundos me extasia * Pudera eu ter mais tempo e ficaria A ver-te espanto a espanto acrescentada Até adormecer sobre a almofada Onde, por fim, Morfeu te renderia * É atrasada que te rendo preito.....