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CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXXII

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CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXXII * ONDE ACHAREI LUGAR TÃO APARTADO * Onde acharei lugar tão apartado, E tão isento em tudo da ventura, Que, não digo eu de humana criatura, Mas nem de feras seja frequentado? * Algum bosque medonho e carregado, Ou selva solitaria, triste e escura, Sem fonte clara, ou placida verdura; Em fim, lugar conforme a meu cuidado? *   Porque alli nas entranhas dos penedos, Em vida morto, sepultado em vida, Me queixe copiosa e livremente. * Que, pois a minha pena he sem medida, Alli não serei triste em dias ledos, E dias tristes me farão contente. * Luís de Camões *** Vinde comigo e eu vos mostrarei O espaço pelo qual dizeis ansiar, Fugi porém senhor que um tal lugar Jamais agradará a servo ou rei * É um espaço do qual fugido hei E ao qual desejaria não voltar, Mas voltarei, senhor, pra vos mostrar Que porque mo pedis lá voltarei * Tem a aridez marmórea de um deserto Que nunca houvesse visto Sol ou Lua E nem os mortos andam lá por perto...

PEQUENAS FONTES/GRANDES CATARATAS

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"Três Mulheres na Fonte" - Tela de Pablo Picasso *** PEQUENAS FONTES/GRANDES CATARATAS * Pequenas fontes, rápidos, cascatas... Assim a água emula a Poesia Que às vezes se despenha em cataratas Quando a Musa se exalta ou se extasia * E inunda as planuras, pastos, matas Que nascerem da tua fantasia Até que, enfim, naufragas e resgatas Parcos salvados na maré vazia... * Qual é que à outra emula é o mistério Que não desvendarás porque, em verdade, Não é esse o teu grande desidério: * Esse virá na onda que te invade Mal se desdobre em espuma o verso etéreo Que te arrebata e leva à saciedade. ***   Mª João Brito de Sousa 07.09.2024 -21.05h ***        

O IMORTAL SONETO ALEXANDRINO

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Homem vitruviano Leonardo da Vinci * O IMORTAL SONETO ALEXANDRINO * Abre-se em leque extenso, amplia-se e seduz Como raio de luz em nevoeiro denso... Por vezes surge tenso, em fogo se traduz, Mas é um ai-jesus tão suave quanto incenso * Jamais houve consenso entre quem lhe faz jus, Mas ninguém o reduz pois jus faz ao bom senso E quando um ódio intenso o quer levar à cruz, Levanta-se e reluz, mostra-se infindo, imenso! * Ou suscita paixões, ou raivas e desprezo, Mas lá renasce ileso imune às agressões E prenhe de ilusões, vivo, brilhante, aceso! * Tem forma sem estar preso às velhas convenções, Resiste às tentações, sustenta-lhes o peso... Sabe bem quanto o prezo e, a mim, dá-me lições. *   Maria João Brito de Sousa 15.06.2020 - 15.23h ***

NOVEMBRO DE MÁ MEMÓRIA!

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Inda que de mim discorde, Não me deseje o pior: Sou loba que nunca morde, Leia-me  aqui  , por favor!

ESSÊNCIA - Reedição

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Imagem Pinterest * ESSÊNCIA * Mudas de espanto e sem fazer sentido Nascem palavras, brotam sensações Que se entrechocam num ponto perdido Gerando prados, montanhas, vulcões * Trocando as voltas ao que foi pedido, Emudecendo a voz de outras questões Com que se tenham já comprometido, Muito senhoras das suas razões! * Como ecos fundos, chegam sons distantes Que, cá por dentro, fazem ressoar Roucos murmúrios de ideias constantes * Músicas loucas, vibráteis, pulsantes Em que o desejo se ousa decifrar Na pauta insone de uns versos cantantes * Maria João Brito de Sousa 16.05.2014 – 16.54h ***  

BANDEIRA DE CORSÁRIO - Reedição

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Imagem Pinterest * BANDEIRA DE CORSÁRIO * À nuvem que crescia ordenei: - Gela! E ela estremeceu, mas não gelou. Quis pintar qualquer coisa e gritei: - Tela! Mas ela fez-se surda ou nem escutou * Restava-me a memória, esta sequela De um sonho (in)conquistado que passou, Escondida onde nem eu dava por ela, Murchando à sombra desta que hoje sou * Escrava da minha própria liberdade, Jamais o burburinho da cidade Me há-de arrancar à paz do meu estuário * Sobre o convés do galeão, que piso, Disparo o meu canhão, sem pré-aviso, E desfraldo a bandeira de corsário. * Maria João Brito de Sousa 19.07.2018 – 17.15h *** Às minhas memórias de Emílio Salgari

SE O CHICOTE DO RAIO ME ILUMINA - Reedição

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Eu com a avó Alice e o avô poeta na varanda da casa da rua Luís de Camões *** SE O CHICOTE DO RAIO ME ILUMINA * Se hoje escrevo com força de trovão E o chicote do raio me ilumina, São as minhas memórias de menina Que, debruçadas neste coração, * Me enfunam das razões que há na razão Essa improvável vela que, à bolina, Singra agora indomável peregrina Dos ventos que vão rumo ao furacão * Lembras-te, avô poeta, desses dias Das chuvas fortes e das ventanias Que tanta vez saudámos fascinados * P´las vergastas de luz que ribombavam Colorindo as rajadas que açoitavam Os nossos rostos mudos e assombrados? *   © Maria João Brito de Sousa - Julho, 2020 * (escrito no dia a seguir à grande trovoada de Verão)